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03/11/2017  | Pacientes

DO BEM: A importância das classes hospitalares

Regulamentadas pelo MEC e ligadas a escolas da rede estadual e municipal, elas funcionam em hospitais e casas de apoio para garantir o direito à educação de crianças impossibilitadas de frequentar a rede de ensino regular

Por Martha San Juan França

Girl drawing picture in a book while sitting on hospital bed

Em tratamento durante dez meses no ano passado no ITACI – Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, ligado ao Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP, Thayssa Araújo de Sá, de 14 anos, não precisava se deslocar
muito para frequentar a escola. A sala de aula ficava ali do lado, no mesmo andar onde estava internada.
Em compensação, as provas e lições tinham um destino bem mais distante. Thayssa acompanhavado hospital paulista o que seus colegas do 8º ano do ensino fundamental estudavam em Itaboraí, município da Grande Niterói. Este ano, de volta à sua cidade natal, ela retomou os estudos na escola fluminense, enquanto se recupera do transplante de medula óssea e das sequelas do tratamento para leucemia mieloide aguda.

A história de Thayssa e de muitas outras crianças obrigadas a deixar temporariamente os estudos para se tratar de câncer seria outra se não fosse pelo ensino nas classes hospitalares, recurso valioso mas ainda pouco conhecido e utilizado no país. Regulamentadas pelo MEC e ligadas a escolas da rede estadual e municipal que fornecem os professores, elas funcionam em hospitais e casas de apoio para garantir o direito à educação de crianças impossibilitadas de frequentar a rede de ensino regular por motivo de saúde. Seu objetivo é impedir a interrupção do processo de aprendizagem dessas crianças, incluindo os pacientes pediátricos oncológicos, e contribuir para diminuir o trauma hospitalar, ao trazer a rotina da escola para mais perto de suas vidas.

“Nós acreditamos que esses pacientes vão se recuperar clinicamente e o mundo está lá fora aguardando por eles”, afirma a professora Angelita Moraes Ferreira, que trabalha com classes hospitalares no Itaci há cinco anos. Ela conta que, diferentemente do que se imagina, o ensino hospitalar não é apenas uma forma de ocupação para crianças
doentes, mas obedece à grade curricular estabelecida pelo MEC. No ano passado, três dos alunos que frequentaram o ensino médio no Itaci fizeram o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e tiraram boas notas. Muitos aprenderam a ler e escrever enquanto estavam em tratamento.

“A classe hospitalar não é um recreio nem uma brinquedoteca. As crianças têm compromissos como na escola”, afirma Angelita. Lições, provas e outros relatórios de desempenho são enviados às unidades em que elas estão matriculadas regularmente e constam das avaliações de cada aluno. Para isso, a professora – como no caso de Thayssa – entra em contato com a escola de origem e alia o conteúdo ali oferecido com o projeto pedagógico
desenvolvido na classe hospitalar.

Angelita explica que essa rotina burocrática traz dificuldades. Como as educadoras são ligadas às secretarias
municipal e estadual de Educação, os alunos dependem de uma vaga na escola da região onde estão situados os hospitais que prosseguir com os estudos. Têm de ser transferidas da sua cidade para o colégio mais perto. E essa vaga nem sempre está disponível. “Se houvesse uma legislação federal que normatizasse o ensino nas classes
hospitalares, como ocorre com as escolas técnicas, por exemplo, facilitaria bastante o nosso trabalho”, diz Angelita.

Atendimento diferenciado

A primeira experiência educacional para crianças hospitalizadas no Brasil surgiu em 1950, no Hospital Menino Jesus, em Niterói, e tornou-se referência nacional por manter suas atividades em funcionamento até hoje. Levou tempo para que esta e outras iniciativas isoladas começassem a ter o seu valor reconhecido. Foi preciso que a Constituição de 1988 enfatizasse o direito à educação, reafirmado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente
(1990) e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996), para que as classes hospitalares fossem oficializadas pela lei 10.685/2000, previstas nas Diretrizes Nacionais para a Educação Especial (2001) e regulamentadas pela Secretaria de Educação Especial do MEC no ano seguinte.

Apesar disso, ainda hoje a prática de oferecer uma escola em unidades hospitalares não é comum. Levantamento apresentado na publicação O direito à educação e à cultura em hospitais, do Complexo Pequeno Príncipe, de Curitiba (com atendimento educacional desde 1985), mostra que no ano de 2015 o Brasil tinha 156 hospitais com oferta de escola, sendo a maioria instituições públicas. Um número pequeno, considerando-se o universo de 6.750  estabelecimentos hospitalares do país. Segundo a publicação, boa parte do atendimento ainda ocorre em condições precárias e sem o devido apoio das instituições e de muitos profissionais de saúde. A rotatividade de professores, que dependem da política e do orçamento das secretarias de educação, também dificulta o trabalho dentro dos hospitais.

As dificuldades ocorrem também porque a prática educativa no contexto hospitalar apresenta peculiaridades que exigem dos profissionais envolvidos maior flexibilidade e compreensão. “O tratamento altera a vida cotidiana das crianças, que são retiradas do convívio social da família e dos amigos, e tudo o que puder ser feito para humanizar a estada no hospital é importante para a sua recuperação”, afirma a oncologista Cecília Maria Lima da Costa, diretora do Departamento de Oncologia Pediátrica do A.C. Camargo Cancer Center, onde funciona, desde 1987, a Escola  especializada

Schwester Heine, que atende crianças dos setores da pediatria, UTI e pronto-socorro infantil. A médica lembra que, desde que diagnosticadas e tratadas a tempo em centros especializados, as neoplasias infantojuvenis são curáveis em 70% dos casos. Mas podem evoluir muito rapidamente e ser bastante agressivas, exigindo procedimentos invasivos
e internações longas e frequentes. As restrições trazidas pela doença, as sessões de quimioterapia, as cirurgias, tudo isso provoca fraqueza, enjoos e afeta a atividade física, o que agrava o estado de estresse, com consequências para o quadro clínico. “Manter esses pequenos pacientes na escola, em um ambiente acolhedor, ajuda a diminuir o  sofrimento físico e emocional e faz com que eles esqueçam temporariamente que estão dentro de um hospital”,
afirma a doutora Cecília.

Proposta pedagógica

A escola do A.C. Camargo, como a de outras instituições hospitalares de ponta, é um refúgio para os pequenos pacientes. Propositalmente, tudo ali é pensado para quebrar a tensão do tratamento por meio da educação. O ambiente é acolhedor, com estimulações visuais, brinquedos, jogos, livros e computador. “A sala de aula é planejada para que a criança ou o adolescente possam aproveitar, dentro de suas limitações, a oportunidade de manter o desenvolvimento cognitivo, mesmo em situação de adoecimento”, afirma a gerente educacional da escola, Maria do Carmo da Silva Mutti, autora da obra Pedagogia Hospitalar e Formação Docente: A Arte de Ensinar, Amar e se Encantar. “O objetivo vai além da aquisição de conhecimentos formais e da continuidade do currículo escolar. Nós queremos abrir a possibilidade para as crianças brincarem, aprenderem e principalmente interagirem socialmente.”

O A.C. Camargo promove, desde 2009, um curso de extensão em pedagogia hospitalar, no qual qualifica novos profissionais capacitados a atuar na área em outras instituições. Segundo Maria do Carmo, o ensino em classes hospitalares requer um perfil diferenciado de professor, que implica em mais disponibilidade e abertura para os alunos. “É um processo bem dinâmico e bem diferente do ensino tradicional”, explica. “A escola regular tem um planejamento para 30 alunos em sala de aula. No contexto hospitalar, tenho 30 planos diferentes, de acordo com o contexto de cada aluno. O atendimento é personalizado.”

Ela explica que a proposta da pedagogia hospitalar é realizar as tarefas da escola, mas adequando-as à situação peculiar da criança. “A aula é agora. Tem dias que o paciente está bem e pode estudar um tempo mais. Na semana seguinte, ele fará quimioterapia e pode ter reações colaterais, então as aulas são suspensas temporariamente.” Exames, cirurgias e outros procedimentos clínicos seguem agendas predeterminadas, mas podem mudar de maneira imprevista. As crianças podem participar das aulas com dores causadas pela doença, pelas intervenções médicas e formas de tratamento. Há aquelas que têm apenas alguns encontros com o professor antes de receber alta; outras que só podem ser atendidas no leito ou na unidade de terapia intensiva.

Há ainda as que vão a óbito. No Instituto Nacional de Câncer (Inca), duas professoras atendem as crianças da pediatria, no centro de transplante de medula óssea e no ambulatório de quimioterapia, que funciona como um hospital-dia. A sala de aula, recém-reformada, é a principal atração para os pacientes, mas muitos são atendidos no leito porque não têm condições de se movimentar. “Procuramos ouvir a criança, a família, dar continuidade ao que ela traz de casa”, afirma a professora Rosane Martins dos Santos. “A vontade de aprender é tão grande que muitas crianças dizem que querem continuar internadas para poder frequentar a escola.”

Isso também acontece no Pequeno Príncipe, em Curitiba. “Trabalhamos com educação mais viva e focada no aluno”, explica Maria Gloss, assistente do Setor de Educação e Cultura do hospital. “Temos condição de descobrir uma lacuna que ficou da compreensão de matemática, por exemplo, de um menino do 6º ano. E, claro, não exigimos
que ele decore as capitanias hereditárias, mas tenha oportunidade de entender suas necessidades e ampliar o seu desejo de viver.”

O exemplo de Mariana

Aos 6 anos, a menina Mariana Rocha Avelino comemora o seu primeiro livro – Mistérios de Mariana – em vídeo do projeto “Histórias que merecem o seu abraço”, uma das iniciativas de atendimento humanizado do Itaci – Instituto de Tratamento do Câncer Infantil. Diagnosticada com rabdomiossarcoma hepático, a menina, natural de Imperatriz
(MA), está há quase um ano em São Paulo, onde faz tratamento e frequenta a classe hospitalar. No vídeo, ela “dá dicas para quem quiser escrever seu próprio livro”.

Na impossibilidade de frequentar uma escola normal, Mariana realizou no hospital o seu grande sonho: aprender a ler e escrever. Segundo sua mãe, Luana, a menina tem reagido bem ao tratamento, já fez cirurgia, rádio e quimioterapia, e o tumor retroagiu. “O que ajudou muito foi encontrar no Itaci a professora Angelita, que ensinou a minha filha a realizar esse sonho em apenas dois meses”, diz. Luana conta que, no início, Mariana frequentava a escola todas as tardes, depois teve que espaçar as aulas, mas fazia questão de comparecer sempre que a saúde permitia. “Eu considero a classe hospitalar uma das coisas que a motivaram a viver, que deixaram o seu dia a dia
mais próximo da realidade”, afirma. “A rotina da sala de aula, a presença dos coleguinhas, a diversão, o carinho e a atenção da professora fizeram com que as situações que ela enfrentou parecessem menos difíceis.

A Mari sempre fez questão de ir à escola, até mesmo no intervalo da quimioterapia, entre uma medicação e outra.” Para a mãe de Mariana, a existência da classe hospitalar é essencial para as crianças, mas depende muito de os pais acreditarem e se disporem a levar. “Muitas vezes as crianças não têm o hábito de ir à escola e os pais não insistem, e depois fica mais complicado”, afirma. Luana vai ainda mais longe. Ela acredita que o ensino personalizado que a
filha está tendo no hospital dificilmente será igual ao de uma sala de aula normal. “Posso dizer com segurança que ela está tendo uma aprendizagem muito melhor”, completa.

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